Na rotina corporativa, há coisas que o RH observa diariamente e que o restante da organização nem sempre vê: reuniões marcadas por olhares cansados e silêncios constrangedores; pedidos de demissão “sem motivo aparente”; lideranças despreparadas diante de equipes à beira do colapso; colaboradores que permanecem no cargo, mas já se afastaram emocionalmente.
Mas existe um público que cuida e que nem sempre é cuidado. Você sabe de quem estou falando, né? Sim, você mesmo, profissional de RH. Você sente, mas dificilmente tem ferramentas suficientes para sustentar.
Podemos fazer um verdadeiro chá revelação das dores invisíveis que o profissional de RH enfrenta: a pressão de cuidar da saúde mental de todos sem conseguir cuidar da própria e, pior, sem conseguir considerar que também está sendo observado e que sua saúde também está sendo avaliada.
Também há a frustração de não conseguir traduzir, em números claros, o impacto real do clima organizacional e, não menos importante, a dor silenciosa de ver o adoecimento se tornar parte da rotina.
Trago dados para confirmar o que já está evidente no cotidiano: cerca de 30% dos afastamentos no Brasil já estão relacionados a transtornos mentais; empresas com clima organizacional tóxico apresentam até 50% mais rotatividade; profissionais de RH relatam exaustão emocional três vezes maior do que em outras áreas.
Achou os números significativos? Calma, porque há um movimento ainda mais estrutural acontecendo.
Durante anos, a estabilidade profissional foi associada à acomodação. Hoje, os dados mostram outra leitura. Em uma pesquisa recente da Cia de Talentos, na Carreira dos Sonhos 2025, com mais de 73 mil respondentes, observou-se que a estabilidade deixou de ser sinônimo de falta de ambição e passou a funcionar como estratégia de preservação da saúde mental.
Os discursos nos processos seletivos podem até mudar, mas qualidade de vida e estabilidade na rotina viraram o novo luxo. Nessa pesquisa, 86% dos profissionais já colocam o bem-estar no mesmo patamar do salário. E 62% dos jovens apontam estabilidade como prioridade, sem abrir mão do crescimento. Ou seja: profissionais mais estáveis, porém mais exigentes.
O que mudou não foi a ambição nem o padrão de consumo, foi o limite do que as pessoas estão dispostas a sacrificar para alcançar seus sonhos materiais ou permanecer em um status quo.
Agora, não menos importante, não podemos ignorar o cenário econômico, que a cada ano se apresenta mais volátil, com metas crescentes e pressão contínua. Uma pergunta curiosa: quantos millennials que você conhece compraram uma casa própria em 2025? Um carro à vista? Vou arriscar dizer que, se você conhece cinco, está em uma bolha nada padrão para os proletários.
A estabilidade passou a operar como amortecedor emocional porque, de fato, as coisas não estão fáceis. Salário é bom, sim (todos estão em busca dele e de condições melhores), mas hoje também há um desejo por previsibilidade, reconhecimento, segurança psicológica e perspectiva real de continuidade. Ainda mais para nós, brasileiros, considerados o país mais ansioso do mundo. Precisamos sentir o mínimo de segurança nos ambientes em que convivemos.
O trabalho deixou de ser o centro absoluto da identidade e passou a ser meio de sustentação da vida, especialmente para a celebridade do momento: a nossa saúde mental. Estamos com outras prioridades e não aceitamos repetir padrões de adoecimento.
Agora vou te apresentar o ouro desses dados:
O Panorama do Bem-Estar Corporativo, apresentado pelo Wellhub, mostra que empresas com programas estruturados de bem-estar registram 30% menos rotatividade; 30% menos absenteísmo; e até 35% de redução em custos relacionados à saúde. Eu sei, eu dei de mão beijada o caminho das pedras… de nada!
Mas, pelo outro lado da moeda, as coisas não são tão belas assim. Enquanto isso, dados do INSS indicam mais de 280 mil benefícios concedidos em um único ano por transtornos mentais e comportamentais.
Se informações sobre saúde mental e bem-estar não começarem a ser consideradas para ontem, isso pode, sim, impactar a sustentabilidade do negócio. Acredite, eu trouxe números suficientes para você confiar em mim.
Para encerrarmos esse papo, vou te deixar uma última reflexão. Leve para você, para suas reuniões e para a forma como tem se tratado também enquanto profissional: ninguém sustenta alta performance vivendo permanentemente em modo sobrevivência.
Como está a sua sustentabilidade emocional?
E a sustentabilidade da sua empresa?
Até a próxima.