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A NR-1 não vai impactar a sua empresa. Ela já está impactando.

Antes de falar em multa, KPI ou norma técnica, vale encarar uma pergunta simples: sua empresa está preparada para garantir a saúde mental das pessoas que fazem ela, de fato, existir?

Se a sua resposta for “sim”, saiba que você já é exceção. E eu explico por quê.

Em 2024, o Brasil registrou mais de 472 mil licenças por questões de saúde mental, com um aumento de 134% nos afastamentos relacionados à ansiedade, depressão e esgotamento. Esses dados não são opinião nem achismo: foram divulgados em 17 de abril de 2025, em levantamento publicado pela ONU.

E imagino que você, profissional de RH, já reconheça os sinais do modelo de trabalho que sustenta esses números: cobrança constante por alta performance, metas cada vez mais agressivas e pouca consideração pelo custo humano dessa lógica.

O problema é que o preço da performance contínua raramente aparece onde se espera. Ele surge na alta rotatividade, nos afastamentos recorrentes, em indicadores inflados por pressão e em decisões que mantêm resultados no curto prazo, mas fragilizam a estrutura no médio e longo.

Existe uma frase bastante conhecida que diz: “se existe regra, é porque existe história”. Diante do crescimento consistente dos adoecimentos mentais e emocionais, a NR-1 surge justamente para nomear algo que já estava acontecendo na prática: riscos psicossociais também são riscos ocupacionais.

Desde maio de 2025, as empresas passaram a ter a obrigação de identificar, avaliar e gerenciar riscos psicossociais no ambiente de trabalho. A partir de 2026, isso deixa de ser apenas orientação e passa a ter impacto direto em fiscalizações e multas.

Em outras palavras: saúde mental deixou de ser tratada como cuidado diferencial e passou a ser, definitivamente, gestão de risco.

Mas se esse tema ficar restrito apenas ao cumprimento da lei, bastariam alguns documentos assinados e a empresa estaria “regularizada”. Na prática, não funciona assim.

Quando a saúde mental é negligenciada, o impacto não aparece só no indivíduo. Ele aparece nos números: aumento de turnover, queda de produtividade, afastamentos recorrentes, lideranças sobrecarregadas e um RH que atua como bombeiro, não como estrategista.

Isso não significa que a empresa vai deixar de operar ou fechar as portas. Ela segue funcionando, mas, cada vez mais em modo emergência, gastando energia e dinheiro com reposições constantes e apagando incêndios que poderiam ter sido evitados com planejamento.

Cuidar da saúde mental não exige soluções grandiosas ou discursos idealizados. Exige observação, responsabilidade e, quando necessário, mudança de cultura organizacional.

E vale sair da leitura literal de sustentabilidade. Uma empresa sustentável hoje não é apenas a que elimina copos descartáveis, mas aquela que entende que algumas coisas são condições básicas de funcionamento. Preservar a saúde mental de quem sustenta os resultados é uma delas.

Então deixo aqui uma lição de casa, especialmente para quem atua em RH:

Se os resultados da empresa onde você está hoje dependem de equipes exaustas, ansiosas ou constantemente afastadas, talvez o problema não esteja nas pessoas, mas no modelo que as cerca.

Para encerrar aqui, a pergunta final é simples:

A empresa vai reagir apenas quando for obrigada ou vai se antecipar para construir um ambiente produtivo sem adoecer quem faz tudo acontecer?

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